Por que encaminham casais sorodiscordantes para HIV à reprodução assistida?

Quando o HIV se mantém indetectável no sangue de uma pessoa por pelo menos seis meses, ela não transmite o vírus da aids por via sexual. Nos últimos anos, vários estudos de grande relevância científica fortaleceram o conceito de que estar com o vírus indetectável equivale a ser intransmissível (I=I).

Essa informação é capaz de mudar a vida de quem convive com o HIV e segue, rigorosamente, o tratamento com antirretrovirais. Além do alívio de saber que não corre o risco de transmitir o vírus ao parceiro, a pessoa se dá conta de que pode ter filhos de forma natural e segura.

Apesar disso, grande parte dos médicos insiste em encaminhar à reprodução assistida os casais sorodiscordantes (quando um é soropositivo e o outro não) que desejam uma gravidez. É uma prática que, à luz do conhecimento existente em 2020, causa estranhamento e precisa ser revista.

O que os médicos dizem

Para entender a dimensão do problema, o urologista Conrado Alvarenga, a infectologista Vivian Avelino-Silva e colegas decidiram investigar a visão e a prática de 110 profissionais de saúde que atendem casais sorodiscordantes.

Na amostra reunida pelos pesquisadores, havia 90 ginecologistas, quatro urologistas, quatro biomédicos e 12 profissionais de outras especialidades de diferentes estados brasileiros.

Eles participavam de um evento relacionado à reprodução assistida e aceitaram responder a um questionário. Os resultados da pesquisa foram apresentados por Vivian durante a Conferência Internacional de Aids , realizada há duas semanas.

A maioria dos especialistas (96%) declarou que encorajaria um casal sorodiscordante para HIV a tentar engravidar. No entanto, apenas 38% disseram que recomendariam a concepção natural. Mais de 60% encaminhariam o casal à reprodução assistida, mesmo sem evidência de infertilidade.

Por que eles fazem isso?

“Muitos profissionais de saúde ainda têm medo de bancar a informação de que não há risco de transmissão sexual do HIV quando a carga viral é indetectável, apesar de toda a comprovação científica”, disse à coluna a infectologista Vivian Avelino-Silva, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

“Ao encaminhar pessoas férteis para a reprodução assistida, esses médicos submetem as mulheres a um risco desnecessário (associado à indução da ovulação) e o casal a gastos financeiros. Isso precisa mudar”, diz ela.

Por que facilitar se é possível complicar…

Se não há problemas de fertilidade, o acompanhamento dos casais heterossexuais sorodiscordantes que desejam ter filhos poderia se limitar ao consultório do ginecologista. “Não precisariam chegar até mim”, diz o urologista Conrado Alvarenga, especialista em infertilidade masculina.

No dia a dia, eles continuam chegando. “Os trabalhos mostram que a gravidez de forma natural é segura quando o parceiro soropositivo tem ao menos 12 meses de carga viral indetectável”, afirma Alvarenga.

“As evidências científicas levam anos até se tornarem robustas, mas os medos e os tabus persistem. Faltam informação e educação continuada dos profissionais”, diz ele.

Quando a reprodução assistida faz sentido

Se o casal sorodiscordante tem dificuldade para engravidar naturalmente (por fatores como endometriose ou baixa contagem de espermatozóides, por exemplo), faz sentido recomendar um tratamento para a infertilidade ou a reprodução assistida.

“Ainda assim, é importante salientar que não é necessário fazer a lavagem de esperma antes da fecundação se o homem tem carga viral indetectável e, portanto, não transmite o HIV”, diz a infectologista Vivian.

A lavagem de esperma é um procedimento realizado em reprodução assistida, quando existe algum tipo de infecção que pode ser transmitida pelo sêmen. “Procedimentos desnecessários são lucrativos. É preciso ter em mente que conflitos de interesse existem na medicina”, afirma.

Duas informações transformadoras

Ao longo de sua experiência no acompanhamento de pessoas que convivem com o HIV, Vivian observa que muitas sofrem com um autojulgamento (“eu mereço mesmo tudo isso”), derivado do estigma social da aids.

Alguns desenvolvem a crença de que nunca mais vão ter amor e uma vida sexual normal; outros se sentem como uma “bomba-relógio” e sabotam qualquer possibilidade de relacionamento por medo de rejeição.

“Para essas pessoas, é uma libertação saber que indetectável é intransmissível”, diz a médica. “Quando recebem essa informação, elas podem pautar os relacionamentos em afeto e prazer, e não só no medo e no estigma. O mesmo acontece quando descobrem que podem ter filhos naturalmente. São duas informações transformadoras”

Se a ciência comprova que casais sorodiscordantes podem ter filhos de forma natural e segura, por que limitar as escolhas que eles têm o direito de fazer?